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de Dezembro de 2005 - Revista Domingo | Correio da Manhã
Reportagem "Os Olhos de Camarate"
"Exames indiciam sinais de explosão"
ATENTADO
'EXAMES
INDICIAM SINAIS DE EXPLOSÃO'
As
duas comissões de inquérito da Assembleia da
República colocaram José Manuel Anes no fulcro
da investigação do caso Camarate já seis
anos depois dos acontecimentos, e depois de confirmar vários
sinais de atentado acabou por se reformar porque parecia que
o perito é que era o suspeito.
-
Está convicto de que houve atentado no caso Camarate?
-
Essa é a minha convicção sob o ponto
de vista químico, porque foram detectados claramente
elementos que indiciam uma explosão que não
seria um grande rebentamento, mas uma explosão localizada
com o objectivo de destruição. Estes exames
foram avaliados pelo Laboratório de Polícia
Científica da PJ e confirmados por um laboratório
inglês, que, estranhamente, passados uns três
meses do primeiro exame e relatório, veio dizer o contrário.
Esse é um mistério, mas não me cabe desvendá-lo.
Creio que a História esclarecerá um dia por
que é que mudaram de posição.
-
Por que é que os exames decisivos demoraram anos?
-
Aquando dos acontecimentos, em Dezembro de 1980, não
tomei contacto com o caso. O importante observar é
que, embora possa estar a ser injusto, não existiu
de início uma equipa de polícia devidamente
coordenada e com uma estratégia, o que nestas investigações
é tão importante como as competências
técnicas dos vários peritos. Essa coordenação
só aconteceu nas comissões de inquérito
conduzidas pela Assembleia da República. Infelizmente,
já era muito tarde, tardíssimo.
-
Houve, então, negligência na investigação
do caso?
-
Sob o ponto de vista das competências, julgo que os
meus colegas fizeram o melhor possível. O defeito dos
portugueses é não sabermos trabalhar em conjunto,
e aí a culpa não foi dos peritos, mas de quem
tinha a responsabilidade da coordenação.
-
O problema não se repetiu com as comissões de
inquérito?
-
Não, porque a orientação da Assembleia
da República foi diferente. Quando havia dúvidas,
fazia-se tudo para se averiguar. Daí os exames que
indiciam a presença de substâncias, como o bário,
altamente suspeitas de sinal de explosão, além
de resquícios de explosivos conhecidos à época
em Portugal como TNT, DNT e nitroglicerina. Está tudo
nos relatórios, mas o processo foi encerrado. E já
houve sentença judicial.
-
Sentiu constrangimentos no seu trabalho?
-
Era funcionário da PJ, mas foi de outras instâncias
judiciais que senti os constrangimentos. Às tantas,
já parecia que o perito é que era o suspeito.
Fartei-me e vim embora. Devo ainda dizer que sempre tive o
maior apoio da parte dos meus dois últimos directores-gerais
Mário Mendes e Fernando Negrão.
José
Manuel Anes, licenciado em Química, foi perito da Polícia
Científica da PJ de 1978 a 98, mas só trabalhou
no caso Camarate no âmbito dos inquérios da Ass.
da República. Foi grão-mestre da Maçonaria
regular de 2001 a 2004.
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